Olá Amigos! No próximo fim de semana apresentaremos a demonstração de processo A CASA DO SÓTÃO AO PORÃO, trabalho que conclui o primeiro ano de atividades do Projeto de Formação e Montagem Teatral 'O Espaço em Aberto'. A demonstração traz ao público pequenas cenas que esboçam o trajeto da pesquisa desenvolvida pela Cia. Experimentus no ultimo ano sobre as relações entre o ator e o espaço cênico. A equipe é formada pelos atores Jô Fornari, Marcelo F. de Souza e Sandra Knoll, o diretor Daniel Olivetto, e dramaturga Eliane Lisbôa, e conta com a colaboração de Barbara Biscaro e Marisa Naspolini na preparação de ator. As apresentações acontecem na Antiga Estação Ferroviária Engenheiro Vereza, no bairro Itaipava, em Itajaí, no próximo sábado e domingo, dias 9 e 10 de fevereiro. A saída para o espaço de apresentação está marcada para as 20h na Casa da Cultura Dide Brandão. Como o público por sessão está limitado em 25 pessoas, haverá distribuição de senhas a partir das 19h30. A ônibus que transportará o público sai pontualmente as 20h, e tem retorno marcado para as 22h. ENTRADA FRANCA As apresentações serão seguidas de debates sobre o trabalho e na ocasião acontece também o lançamento do primeiro volume da Revista 'O Espaço em Aberto'. Esperamos por você! Abraço, Cia. Experimentus
terça-feira, 5 de fevereiro de 2008
A Casa
terça-feira, 29 de janeiro de 2008
Como se faz um trajeto de pesquisa?
O projeto o Espaço em Aberto - como dizíamos no começo do trabalho no ano passado - marca um momento formal de pesquisa na Cia. Experimentus. É possível pensar que todo novo processo de montagem é também um trajeto de pesquisa, pois se trata de uma nova aventura, um caminho de novas buscas, de exploração de novos princípios e formas, uma investigação direcionada à um espetáculo. Quando falamos em "momento formal de pesquisa", estamos justamente pensando a pesquisa como um elemento cujo resultado final parece mais distante que a montagem de um texto previamente escrito, ou de uma pesquisa mais direcionada ao espetáculo como produto.
Até o momento atual a Experimentus sempre partiu de obras literárias ou fragmentos de texto. Mesmo o espetáculo Olha pra Mim, de 2004, que não partia de uma obra prévia, foi criado a partir de um tema mais definido. O trajeto do Espaço em Aberto diz respeito tanto a uma configuração espacial ainda não explorada pela companhia, mas também a uma lacuna em relação ao texto. "Qual é o tema de nosso novo trabalho?", nos perguntávamos no início. Somente após uma pequena caminhada sobre o nada é que pudemos começar a ver temas sendo levantados nas cenas construídas a partir de questões espaciais. Nas reuniões iniciais quanto mais temas e obras se colocava sobre a mesa, mais vazia parecia a mesa. Durante o trabalho prático em sala, quanto mais temas e possibilidades se explorava, mais vazia parecia a sala de trabalho, como se soubéssemos que o que estava acontecendo como cena ainda não era exatamente um tema, um foco. O trajeto era de desenhos numa sala que continuava cada vez mais vazia.
Como se pesquisa? Como o ator pode manifestar autonomia em relação a sua pesquisa individual? Como ele propõe elementos cênicos lidando com seu depoimento pessoal? Como relacionar trabalhos de pesquisa de atores cujos resultados são solilóquios? Como se dirige um espetáculo cujo tema inexiste, cujo produto final é um pontinho no fim de um túnel que não se sabe se tem 100 metros ou 100 kilômetros? Como se escreve uma dramaturgia com o que se descobre por meio do ator? Como não prever resultados, deixando que as criações se manifestem? Se tudo pode ser material do próximo espetáculo, como sabemos o que não pode ser? Como saber se uma cena que se joga fora, por não parecer interessante como resultado, não será o estopim de uma grande descoberta pessoal do ator e do grupo?
Este projeto tem permitido rever caminhos individuais e coletivos. Tem permitido "discutir a relação" no sentido artístico e pessoal (uma vez que um grupo, por mais que se tente fugir dessa lógica, acaba se assemelhando sempre a uma família). O projeto abre possibilidades de trabalharmos com três profissionais (Barbara, Eliane e Marisa) que de distintas formas tem puxado nossos tapetes, provocando descobrir questões desconhecidas, fugir do lugar mais confortável que o grupo se encontra, estimulando que se encontre algo novo, nunca feito por nós, um esvaziamento que cada vez mais se preenche de cores, formas, sons, lógicas, memórias, e opiniões cada vez mais correlatas.
Além de se pesquisar a relação do ator com o espaço, o projeto tem como importância fudamental abrir possibilidades de se viver uma pesquisa, a todo tempo se perguntando como se pesquisa. Se pode pesquisar sabendo que o resultado é um Hamlet, que o resultado seja Ato sem Palavras, ou Édipo Rei, enfim, se pode trabalhar com uma perspectiva mais acertada sobre o que se quer apresentar. Mas, o principal foco deste projeto é o do esvaziamento, por meio de um brainstorm de possibilidades investigadas, tanto sobre o que trazemos planejado para a sala, quanto sobre o que encontramos ao acaso. Quando se entra nesse vazio a possibilidade de se deixar tomar pelo inusitado abre novos caminhos, incertezas, e crises: "mas isso não é teatro, é terapia!", "nunca mais dirijo processo colaborativo!", "eu quero um texto pronto!", "que que eu estou fazendo no meio desta pesquisa?", "eu não sei responder o que você está perguntando", "eu estou louco ou aparece algo importante neste dia de hoje?"...
A Estação Vereza é o mais recente elemento surgido do acaso. Os temas que tem se tornado cada vez mais fortes no trabalho até aqui dizem respeito a ficção e a memória e, ao procurar uma casa antiga, ou qualquer outro espaço que possua uma memória intensa em sua arquitetura, nos deparamos como uma estação de trem desativada. Num momento entre as velhas certezas e o novo desconhecido do Experimentus uma estação de trem marca um ponto de transição. Nos dias 8, 9 e 10 de fevereiro falaremos deste novo momento, mostraremos cenas, falaremos sobre como as cenas apresentados foram construídas, conversaremos sobre os olhares de direção e dramaturgia, sobre as improvisações neste novo espaço, mas, acima de tudo, conversaremos sobre as incertezas e impressões sobre o que pode ser um projeto de pesquisa.
segunda-feira, 21 de janeiro de 2008
Estação Vereza
A estação de Engenheiro Vereza, homenagem ao chefe da obra da E. F. Santa Catarina, Engenheiro Telasco Vereza, no bairro de Itaipava, em Itajaí, foi inaugurada em 1954. Segundo se conta, a sua construção demorou anos, iniciando-se no final dos anos 1920, com o anúncio do início das obras do prolongamento da ferrovia de Blumenau a Itajaí, e teria sido terminada em 1947. A inauguração e o primeiro trem correram apenas em 1954, quando o prolongamento foi finalmente aberto. A estação ferroviária de Engenheiro Vereza prestou grande serviço às comunidades do interior, que utilizavam o telégrafo e o telefone da estação durante as enchentes, comuns na região, para se comunicar com outros lugares. Além disso, a estrada de ferro, que interligava as estações da cidade de Itajaí, servia de refúgio para pessoas e animais ilhados nos diversos locais das redondezas, pois os trilhos ficavam acima da marca da enchente de 1911, a maior que ocorrera na região. Desativada em 1971, descaracterizada com o tempo, foi finalmente cedida pela Prefeitura de Itajaí para a Fundação Genésio Miranda Lins para a instalação, ali, do museu Etno-Arqueológico.
(Fontes: Guia Geral de Estradas de Ferro de 1960; Museu Histórico de Itajaí; Claudio Vereza)
Em breve mais informações sobre o espetáculo-demonstração que concluirá o primeiro ano do projeto O Espaço em Aberto
domingo, 16 de dezembro de 2007
Um abismo é um espaço em aberto
Nos outros espetáculos que dirigi na companhia (Noite Adentro, em 2001 e Hagënbeck Ltda, em 2005) não havia uma concepção inicial de como encenar o que estávamos montando, ainda que partíssemos de obras literárias que, em especial no segundo caso, propunham algum rumo mais desenhado. Nestes processos, buscávamos explorar a leitura que o ator propunha cenicamente para a dramaturgia que estava nascendo, e a concepção do espetáculo se gerava ao longo de um diálogo de leituras distintas sobre a criação, chocando pontos de vista de ator e diretor, e concebendo a encenação a partir do que ia se estabelecendo como texto. Neste novo projeto, não sabemos nada sobre o texto, portanto, a idéia de conceber uma encenação é algo utópico.
O que pude conceber como diretor, a partir das discussões que vínhamos tento sobre o que montar, foi um possível trajeto de pesquisa. Assim, o projeto O Espaço em Aberto começa pra mim um pouco antes do que começou para o restante do grupo. No final do ano de 2006, época em que nos debruçávamos sobre os projetos do ano seguinte comecei a escrever uma proposta de pesquisa para espaços alternativos, ou espaços não-teatrais (embora nenhum destes nomes seja muito adequado ao que queríamos explorar). Então, o que parecia ser apenas uma escrita de projeto me reclamava a projeção de um trajeto de estudo que precisava ser fundamentado no que se costuma chamar de “justificativa do projeto”. Começo meu processo criativo, por incrível que pareça, redigindo um documento.
Já tínhamos convidado Marisa Naspolini para fazer a preparação corporal, e também Barbara Biscaro pra fazer a preparação vocal, além de Eliane Lisbôa, que a gente já “namorava” há algum tempo pra vir escrever algo com o grupo.
Marisa nos indicou um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) que havia sido orientado por ela um ano antes. O trabalho escrito por Marina Monteiro, então aluna de graduação CEART/UDESC, tratava das relações entre o ator e o espaço cênico, considerando o ator um gerador de sentidos que se traduzem espacialmente através de seu corpo e compreendendo o espaço como um ambiente de significados ativos, um elemento que dialoga com o ator e propõe elementos simbólicos para a criação. Neste primeiro momento de organização do projeto, tentando fundamentar uma proposta de pesquisa, alguns novos elementos surgem no encontro com o TCC de Marina, a pesquisa de uma atriz com inquietações bastante próximas do que discutíamos no grupo, e que revela achados importantes para nortear o trabalho que começava a nascer no papel.
Alguns meses depois, equipe reunida, conversas pra discutir possibilidades, anseios, idéias sobre este espaço em suspensão, começamos o trabalho. Basicamente, tínhamos inquietações pessoais que apontavam temas individuais, como por exemplo: as relações com a memória familiar e cultural; a sensação de impotência de um sujeito em relação ao seu entorno; e o desejo pessoal de um sujeito que não se materializa no outro sujeito. Como não tínhamos nenhum texto que nos tivesse atraído, a tentativa inicial era aliar os temas particulares para perceber algum aspecto comum, e assim desenhar um mote pro trabalho poético. A única idéia que nos parecia comum como possibilidade de tema para estas relações ator-espaço, era a idéia de como o mundo interior (sujeito) dialoga com o mundo exterior (o ambiente), ou seja, como o microcosmo se insere no macrocosmo. Esta primeira metáfora clareava a idéia de como aliar o eixo técnico do projeto (ator/espaço) a um eixo temático (microcosmo/macrocosmo) gerando um mote pra começar as oficinas do Espaço em Aberto.
Programamos duas oficinas com Marisa e Barbara que tinham como objetivo vivenciar os primeiros elementos corpóreo-vocais ao redor desta metáfora microcosmo/macrocosmo. Em meio a este processo conseguimos trazer também Narciso Telles, professor da Universidade Federal de Uberlândia, que tem trabalhado sobre os Viewpoints de Anne Bogart, o que nos interessava também como elemento de pesquisa espacial. As oficinas foram abertas a atores da comunidade artística local, o que foi particularmente importante para o nosso trabalho, pois pudemos exercitar uma troca centrada em diferenças concretas. Pudemos perceber como atores de distintos contextos e referências técnicas problematizam as questões pesquisadas e como propõem resoluções distintas das nossas.
Em paralelo às três oficinas começamos a juntar fragmentos, temas, imagens a partir das percepções de cada um: Jô, Marcelo e Sandra (os atores), Eliane, que também participou como atriz nas oficinas, e eu, que atuei em parte do trabalho das oficinas. Ao fim do trabalho, tínhamos seqüências caóticas de materiais de todo o tipo que se puder imaginar. E o espaço estava aberto, como um abismo, cheio de imagens que pareciam inarticuláveis.
O trabalho que estamos desenvolvendo neste momento diz respeito ao enfrentamento dos temas que cada ator propõe, e como cada um alia os seus temas às suas inquietações técnicas. Uma vez que o mote técnico do projeto diz respeito ao ator em relação ao espaço, e o mote temático gira em torno da metáfora microcosmo/macrocosmo, os atores aprofundam a pesquisa em busca de um mote temático e de um mote técnico particulares. A idéia aqui é estimular a autonomia dos atores em relação ao seu trabalho como pesquisadores, prática que começa a se definir melhor na companhia a partir deste projeto.
Meu trabalho neste momento não se centra numa determinada concepção, uma vez que somente agora os eixos particulares dos atores estão melhor definidos, e a partir daqui essas linhas se entrelaçam, gerando um começo de texto a ser encenado. O trabalho que desenvolvo neste momento é o de perceber como estes focos começam a se relacionar, e de provocar o aprofundamento do trabalho individual dos atores, intervindo pra que os materiais de suas criações sejam postos em dúvida, sejam catapultados. Neste ponto do processo, a direção tem sido um exercício curioso (e às vezes neurótico) por um olhar mais afinado sobre o trabalho do ator.
quarta-feira, 5 de dezembro de 2007
Os Acrobatas
por Barbara Biscaro, preparadora vocal
O meu contato com o projeto e com as pessoas que integraram o oficina surgiu de uma premissa pessoalmente importante: integrar pesquisas, abrir espaços de convivência entre artistas que têm uma perspectiva exploratória. Conduzir uma oficina, compartilhando meus procedimentos técnicos e minhas experimentações como atriz e cantora com outros artistas abriu um importante espaço de troca. Expor o corpo e a voz, entre desconhecidos é uma tarefa difícil; perceber e guiar cada pessoa, cada qual com uma voz distinta, cada indivíduo pleno de sentimentos e desejos individuais, é uma função que exige sensibilidade e ao mesmo tempo rigidez...por isso, em nosso processo, foi necessário ouvir cada um com uma atenção absoluta: não respeitar a individualidade é muitas vezes impedir o crescimento de uma pessoa.
Na oficina, não trabalhamos com a palavra enquanto significado verbal, mas, utilizamos a palavra, com suas vogais e consoantes, como um material sonoro a ser engolido e regurgitado pelo ator, a ser manipulado, invertido, subvertido. A palavra era um mote para a descoberta de sonoridades, timbres e efeitos que ampliavam o próprio significado literal da palavra. Não importava ainda o quê dizer, mas como dizer. Foi necessário abrir espaços entre as letras de uma palavra, entre as palavras de uma frase, permitindo que novos significados surgissem na ampliação desses espaços sonoros.
O espaço em aberto deste projeto engloba todos os espaços existentes em um processo de criação teatral: além da busca da relação entre o corpo-voz do ator e o espaço cênico, há o espaço que constitui o mundo interior do ator, que cria as conexões entre volição e ação, entre impulso e movimento corpóreo-vocal. Há também um espaço a ser criado pela técnica vocal: é necessário abrir espaços dentro do corpo, libertar músculos e articulações para que a voz posssa ser emitida, fazer o corpo encher-se e esvaziar-se constantemente buscando a manutenção de um espaço interno que dê respaldo ao canto, à fala, ao som. Há também que se abrir espaços mentais, permitir-se afundar em um caos aparente, lidar com a abertura de tantas possibilidades: um grupo que se lança em um projeto com essa perspectiva corre os riscos necessários para uma renovação de sua linguagem cênica, para a descoberta de novas potencialidades poéticas em seu cerne. A tênue linha que separa o vazio do cheio é a corda na qual atores, diretor e outros artistas envolvidos caminham, completamente abertos em seus próprios espaços pessoais.

